"Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada."
(Cecília Meireles)
Maria Joana Knijnick, solteira,
procura pessoa do sexo oposto para fim de casamento. O interessado deve ser
pessoa sensível, que goste de ouvir música, seja alegre, que goste de passear
domingo de manhã, que goste de pescar, que goste de passear na relva úmida da
manhã, que seja carinhoso, que sussurre aos meus ouvidos que me ama, que tenha
bom humor, mas que também saiba chorar. Que saiba escutar o canto dos pássaros,
que não se importe de dormir ao relento numa noite de lua, que saiba caminhar
nas estrelas, que goste de tomar banho de chuva, que sonhe acordado e que goste
muito do azul do céu. Prefere-se pessoa que saiba escutar os segredos de um
riacho e que não ligue aos marulhos do mar; que goste de bife com arroz e
feijão, mas que prefira peru com maçã, dá-se preferência a pessoas de pés
quentes, que gostem de andar de barco, que gostem de amar e que não puxem as
cobertas de noite. Não se exige que seja rico, de boa aparência, que entenda
Kafka ou saiba consertar eletrodomésticos mas exige-se principalmente que goste
de oferecer flores de vez em quando.
End.: - Rua da Esperança, 43
Correio do
Povo 02/10/73
Informações
Maria Joana Knijnick, solteira, procura pessoa do sexo oposto para fim de
casamento. O interessado deverá ser pessoa sensível e que tenha o hábito de
oferecer flores.
End.: - Rua da Esperança, 43
Correio do
Povo
10/10/73 Informações
Maria Joana Knijnick procura
pessoa que a ame e goste de oferecer flores de vez em quando.
End.: Rua da Esperança, 43
Correio do
Povo
20/10/73 Informações
Maria Joana Knijnick pede que qualquer
pessoa goste dela e suplica que lhe mande flores.
Correio do
Povo
14/11/73 Informações
A família da sempre lembrada Maria
Joana Knijnick comunica o trágico desaparecimento daquele ente querido e
convida os amigos para o ato de sepultamento. Pede-se não enviar flores.
A
história que você acabou de ler é um conto, que se apresenta dividido em
cinco partes. Ele tem uma estrutura diferente dos contos tradicionais,
pois se apropria da estrutura de outros gêneros textuais.
Que gênero é utilizado nas quatro primeiras
partes do texto?
Que características especificas desse gênero
estão presentes nessas partes do conto?
Observe a última parte do conto e responda:
Qual é o gênero textual a que essa parte se assemelha?
Cada
parte do conto tem relação com um momento especifico. De que forma é
marcada a passagem do tempo?
Compare
a primeira frase as demais frases da primeira parte do conto.
De que modo Maria Joana anuncia sua intenção
na primeira frase?
De que tipo de características esperadas no
objeto procurado e em que tipo de linguagem elas estão expressas?
A
primeira parte do texto é mais longa do que as outras, e as
características esperadas na pessoa procurada são muitas.
Por que as partes seguintes vão se tornando
cada vez mais sintéticas?
O que a sucessão dos textos revela quanto ao
estado emocional da personagem?
O
comunicado final da família fala em “trágico desaparecimento”.
O que é possível deduzir do uso desse
adjetivo?
Dê uma interpretação coerente à última frase
do conto.
O menino observa as pessoas que saem e volta-se para o presépio.
Examina-o com interesse. Na missa ouviu que o reino dos céus é das crianças.
Tempestade mental. Se é das crianças o céu e viver no céu é ser feliz,
então a felicidade é das crianças.
Olha o presépio. O boi. O carneirinho. Os astrônomos que foram chamados
reis — os reis magos. A estrela. Tudo bonito. Tudo. Enamora-se. Bem que queria
um desses. O carneirinho. Só o carneirinho. O Menino Jesus, esse não. Tem que
ficar no presépio. Presépio sem Menino Jesus não é presépio. O carneirinho,
esse sim. Há outros no presépio. Não tivera Natal em casa. Nunca. Não conhece
Papai Noel. “Será que Papai Noel me conhece? Sabe de minha existência?”
Na sua frente, o carneirinho cresce, apequena, atrai. Por que o padre
falou que o céu é das crianças?
Não ganhou brinquedo e quer o carneirinho. Será pecado? O que é pecado?
Para que pecado? Se é verdade que Deus ama a gente, por que ele deixou a cobra
dar a maçã para Eva e Eva para Adão para depois todo mundo ter pecado?
Ele quer o carneirinho. Todos já se foram. Ninguém vê. O Cristo,
crucificado, parece dormir de cansaço e de dor na cruz, na parede, lá atrás do
altar. Parece não se importar com nada ali na igreja. Coitadinho de Cristo.
Sofreu muito. Mas por que, se ele é Deus? Ou ele é apenas o Filho de Deus? Se é
filho não é pai e se Deus é pai não é filho?!
Coitadinho de Cristo! O padre falou que Cristo sofreu para o perdão dos
pecados. Não sei não. Acho que Cristo não sofreu por mim não. Papai Noel não me
conhece. Será que Cristo me conhece?!
Esfrega as mãos, nervoso. A decisão. Ergue o braço, mas o gesto fica
suspenso no ar com a chegada do vigário que vem fechar a igreja. Para disfarçar
a intenção, limpa com o dedinho o espelho que forma o lago nas proximidades da
gruta de Belém. Por que presépio em forma de gruta? Cristo nasceu não foi num
ranchinho, na estrebaria, casa de animais?
— O Sinhore vai fechá a igreja? — Pergunta ao padre que fecha a primeira
porta.
— Estou fechando — Responde o padre, em seu sotaque de estrangeiro, não
com aquele carinho com que falou na missa da meia-noite.
— O presepe tá bunito, né? — insiste o menino, tentando coragem para
pedir o carneirinho.
— Você acha? — o padre fala indiferente e o menino entende que o vigário
não está interessado naquele diálogo, quase monólogo.
— Acho — termina o menino, desconcertado, infeliz. Percebe que de nada
adiantará insistir. Não vai ganhar o presente.
Absorto nos sonhos, fica a olhar o presépio sem nada ver.
“Como eu queria um carneirinho desse!”
E o vigário o acorda para a realidade:
— Vamos embora, dormir?
— Vamo.
Volta-se e ainda dirige um último olhar para o carneirinho do presépio,
um ente querido que talvez jamais voltará a ver. O padre fecha a última porta e
se vai.
O menino, agora com medo, corre debaixo da madrugada em direção ao
aconchego que o espera debaixo da ponte, onde se juntará aos pais e aos cinco
irmãos menores. Dormem. Não veem a fome, não sentem nenhum desejo. Enquanto
dormem, os sentidos nada reclamam. Ele sonha com o presente de Natal que não
ganhou: o carneirinho do presépio.
O
texto acima é um conto. O conto pertence ao gênero dos gêneros narrativos
ficcionais. Os textos narrativos apresentam alguns elementos em comum,
como fatos, personagens, tempo, espaço, narrador. No conto lido:
Quais são as personagens envolvidas na
história?
Onde acontece os fatos narrados?
No conto, os fatos são narrados em sequência
temporal e mantem entre si relação de causa e efeito. Por exemplo: o
menino decide pegar o carneirinho, mas, quando ergue o braço para pega-lo
o padre entra. O menino, então, disfarça, limpando como dedo o espelho
que forma o lago do presépio. Cite outros fatos do texto dispostos em
sequência temporal e ligados a uma relação de causa e efeito.
Em que época acontecem os fatos narrados? Em
que lugar?
No
conto em estudo, os fatos narrados são vividos pelo menino e pelo padre.
Levante hipóteses: por que essas pessoas não
tem nome?
As personagens podem ser caracterizadas
física e psicologicamente. Como é o menino? E o padre?
Releia
os três primeiros parágrafos do texto e responda: Em que trecho a
narrativa começa a criar expectativa para o leitor?
O
menino quer o carneirinho do presépio e pensa no que ouviu na missa
Por que ele não quer o Menino Jesus?
Que tipo de discurso o narrador emprega para
apresentar o pensamento do menino?
Qual é o momento de maior tensão no texto?
O
conto em estudo narra uma história que pode ser real e vivida por muitas
crianças que desejam algo, mas não o tem. Na sua opinião, o menino do
conto teria cometido um crime se furtasse o carneirinho do presépio?
Justifique sua resposta.
Todos os alunos devem trazer e expor em sala textos informativos e fotos de
placas nas ruas (pelo menos um por aluno) em que haja erro de concordância e/ou regência. Vocês podem fotografar com o celular/ máquina, o importante é que imprimam e levam para a sala no dia planejado.
Os grupos apresentaram, oralmente, suas repostas uns aos outros.
a atividade será considerada finalizada quando a professora receber o email com todas as respostas, individualmente.
Venha ver o por do sol
Lygia Fagundes Telles (em Venha ver o por do sol e outros contos)
ELA
SUBIU sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam
rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios.
No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas
crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na
quietude da tarde.
Ele
a esperava encostado a uma árvore. Esguio e magro, metido num largo blusão
azul-marinho, cabelos crescidos e desalinhados, tinham um jeito jovial de
estudante.
- Minha querida Raquel.
Ela encarou-o, séria. E olhou para os próprios sapatos.
- Vejam que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. Que
idéia, Ricardo, que idéia! Tive que descer do taxi lá longe, jamais ele
chegaria aqui em cima.
Ele
sorriu entre malicioso e ingênuo.
- Jamais, não é? Pensei que viesse vestida esportivamente e agora me aparece
nessa elegância…Quando você andava comigo, usava uns sapatões de sete-léguas,
lembra?
- Foi para falar sobre isso que você me fez subir até aqui? – perguntou ela,
guardando as luvas na bolsa. Tirou um cigarro. – Hem?!
- Ah, Raquel… – e ele tomou-a pelo braço rindo.
- Você está uma coisa de linda. E fuma agora uns cigarrinhos pilantras, azul e
dourado…Juro que eu tinha que ver uma vez toda essa beleza, sentir esse
perfume. Então fiz mal?
- Podia ter escolhido um outro lugar, não? – Abrandara a voz – E que é isso aí?
Um cemitério?
Ele voltou-se para o velho muro arruinado. Indicou com o olhar o portão de
ferro, carcomido pela ferrugem.
- Cemitério abandonado, meu anjo. Vivos e mortos, desertaram todos. Nem os
fantasmas sobraram, olha aí como as criancinhas brincam sem medo – acrescentou,
lançando um olhar às crianças rodando na sua ciranda. Ela tragou lentamente.
Soprou a fumaça na cara do companheiro. Sorriu. – Ricardo e suas idéias. E
agora? Qual é o programa?
Brandamente ele a tomou pela cintura.
- Conheço bem tudo isso, minha gente está enterrada aí. Vamos entrar um
instante e te mostrarei o pôr do sol mais lindo do mundo.
Perplexa, ela encarou-o um instante. E vergou a cabeça para trás numa risada.
- Ver o pôr do sol!…Ah, meu Deus…Fabuloso, fabuloso!…Me implora um último
encontro, me atormenta dias seguidos, me faz vir de longe para esta buraqueira,
só mais uma vez, só mais uma! E para quê? Para ver o pôr do sol num cemitério…
Ele riu também, afetando encabulamento como um menino pilhado em falta.
- Raquel minha querida, não faça assim comigo. Você sabe que eu gostaria era de
te levar ao meu apartamento, mas fiquei mais pobre ainda, como se isso fosse
possível. Moro agora numa pensão horrenda, a dona é uma Medusa que vive
espiando pelo buraco da fechadura…
- E você acha que eu iria?
- Não se zangue, sei que não iria, você está sendo fidelíssima. Então pensei,
se pudéssemos conversar um instante numa rua afastada…- disse ele,
aproximando-se mais. Acariciou-lhe o braço com as pontas dos dedos. Ficou
sério. E aos poucos, inúmeras rugazinhas foram se formando em redor dos seus
olhos ligeiramente apertados. Os leques de rugas se aprofundaram numa expressão
astuta. Não era nesse instante tão jovem como aparentava. Mas logo sorriu e a
rede de rugas desapareceu sem deixar vestígio. Voltou-lhe novamente o ar
inexperiente e meio desatento –Você fez bem em vir.
- Quer dizer que o programa… E não podíamos tomar alguma coisa num bar?
- Estou sem dinheiro, meu anjo, vê se entende.
- Mas eu pago.
- Com o dinheiro dele? Prefiro beber formicida. Escolhi este passeio porque é
de graça e muito decente, não pode haver passeio mais decente, não concorda
comigo? Até romântico.
Ela olhou em redor. Puxou o braço que ele apertava.
- Foi um risco enorme Ricardo. Ele é ciumentíssimo. Está farto de saber que
tive meus casos. Se nos pilha juntos, então sim, quero ver se alguma das suas
fabulosas idéias vai me consertar a vida.
- Mas me lembrei deste lugar justamente porque não quero que você se arrisque,
meu anjo. Não tem lugar mais discreto do que um cemitério abandonado, veja,
completamente abandonado – prosseguiu ele, abrindo o portão. Os velhos gonzos
gemeram. – Jamais seu amigo ou um amigo do seu amigo saberá que estivemos aqui.
- É um risco enorme, já disse . Não insista nessas brincadeiras, por favor. E
se vem um enterro? Não suporto enterros.
- Mas enterro de quem? Raquel, Raquel, quantas vezes preciso repetir a mesma
coisa?! Há séculos ninguém mais é enterrado aqui, acho que nem os ossos
sobraram, que bobagem. Vem comigo, pode me dar o braço, não tenha medo…
O mato rasteiro dominava tudo. E, não satisfeito de ter se alastrado furioso
pelos canteiros, subira pelas sepulturas, infiltrando-se ávido pelos rachões
dos mármores, invadira alamedas de pedregulhos esverdinhados, como se quisesse
com a sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da
morte. Foram andando vagarosamente pela longa alameda banhada de sol. Os passos
de ambos ressoavam sonoros como uma estranha música feita do som das folhas
secas trituradas sobre os pedregulhos. Amuada mas obediente, ela se deixava
conduzir como uma criança. Às vezes mostrava certa curiosidade por uma ou outra
sepultura com os pálidos medalhões de retratos esmaltados.
- É imenso, hem? E tão miserável, nunca vi um cemitério mais miserável, é
deprimente – exclamou ela atirando a ponta do cigarro na direção de um anjinho
de cabeça decepada.- Vamos embora, Ricardo, chega.
- Ah, Raquel, olha um pouco para esta tarde! Deprimente por quê? Não sei onde
foi que eu li, a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da tarde,
está no crepúsculo, nesse meio-tom, nessa ambigüidade. Estou lhe dando um
crepúsculo numa bandeja e você se queixa.
- Não gosto de cemitério, já disse. E ainda mais cemitério pobre.
Delicadamente ele beijou-lhe a mão.
- Você prometeu dar um fim de tarde a este seu escravo.
- É, mas fiz mal. Pode ser muito engraçado, mas não quero me arriscar mais.
- Ele é tão rico assim?
- Riquíssimo. Vai me levar agora numa viagem fabulosa até o Oriente. Já ouviu
falar no Oriente? Vamos até o Oriente, meu caro…
Ele apanhou um pedregulho e fechou-o na mão. A pequenina rede de rugas voltou a
se estender em redor dos seus olhos. A fisionomia, tão aberta e lisa,
repentinamente escureceu, envelhecida. Mas logo o sorriso reapareceu e as
rugazinhas sumiram.
- Eu também te levei um dia para passear de barco, lembra?
Recostando a cabeça no ombro do homem, ela retardou o passo.
- Sabe Ricardo, acho que você é mesmo tantã…Mas, apesar de tudo, tenho às vezes
saudade daquele tempo. Que ano aquele! Palavra que, quando penso, não entendo
até hoje como agüentei tanto, imagine um ano.
- É que você tinha lido A dama das Camélias, ficou assim toda frágil, toda
sentimental. E agora? Que romance você está lendo agora. Hem?
- Nenhum – respondeu ela, franzindo os lábios. Deteve-se para ler a inscrição
de uma laje despedaçada: – A minha querida esposa, eternas saudades – leu em
voz baixa. Fez um muxoxo.- Pois sim. Durou pouco essa eternidade.
Ele atirou o pedregulho num canteiro ressequido.
Mas é esse abandono na morte que faz o encanto disto. Não se encontra mais a
menor intervenção dos vivos, a estúpida intervenção dos vivos. Veja- disse,
apontando uma sepultura fendida, a erva daninha brotando insólita de dentro da
fenda -, o musgo já cobriu o nome na pedra. Por cima do musgo, ainda virão as
raízes, depois as folhas…Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade, nem
o nome sequer. Nem isso.
Ela aconchegou-se mais a ele. Bocejou.
- Está bem, mas agora vamos embora que já me diverti muito, faz tempo que não
me divirto tanto, só mesmo um cara como você podia me fazer divertir assim –
Deu-lhe um rápido beijo na face. – Chega Ricardo, quero ir embora.
- Mais alguns passos…
- Mas este cemitério não acaba mais, já andamos quilômetros! – Olhou para
atrás. – Nunca andei tanto, Ricardo, vou ficar exausta.
- A boa vida te deixou preguiçosa. Que feio – lamentou ele, impelindo-a para
frente. – Dobrando esta alameda, fica o jazigo da minha gente, é de lá que se
vê o pôr do sol. – E, tomando-a pela cintura: – Sabe, Raquel, andei muitas
vezes por aqui de mãos dadas com minha prima. Tínhamos então doze anos. Todos
os domingos minha mãe vinha trazer flores e arrumar nossa capelinha onde já
estava enterrado meu pai. Eu e minha priminha vínhamos com ela e ficávamos por
aí, de mãos dadas, fazendo tantos planos. Agora as duas estão mortas.
- Sua prima também?
- Também. Morreu quando completou quinze anos. Não era propriamente bonita, mas
tinha uns olhos…Eram assim verdes como os seus, parecidos com os seus.
Extraordinário, Raquel, extraordinário como vocês duas…Penso agora que toda a
beleza dela residia apenas nos olhos, assim meio oblíquos, como os seus.
- Vocês se amaram?
- Ela me amou. Foi a única criatura que…- Fez um gesto. – Enfim não tem
importância.
Raquel tirou-lhe o cigarro, tragou e depois devolveu-o
- Eu gostei de você, Ricardo.
- E eu te amei. E te amo ainda. Percebe agora a diferença?
Um pássaro rompeu o cipreste e soltou um grito. Ela estremeceu.
- Esfriou, não? Vamos embora.
- Já chegamos, meu anjo. Aqui estão meus mortos.
Pararam diante de uma capelinha coberta de alto a baixo por uma trepadeira
selvagem, que a envolvia num furioso abraço de cipós e folhas. A estreita porta
rangeu quando ele a abriu de par em par. A luz invadiu um cubículo de paredes
enegrecidas, cheias de estrias de antigas goteiras. No centro do cubículo, um
altar meio desmantelado, coberto por uma toalha que adquirira a cor do tempo.
Dois vasos de desbotada opalina ladeavam um tosco crucifixo de madeira. Entre
os braços da cruz, uma aranha tecera dois triângulos de teias já rompidas,
pendendo como farrapos de um manto que alguém colocara sobre os ombro do
Cristo. Na parede lateral, à direita da porta, uma portinhola de ferro dando
acesso para uma escada de pedra, descendo em caracol para a catacumba.
Ela entrou na ponta dos pés, evitando roçar mesmo de leve naqueles restos da
capelinha.
- Que triste é isto, Ricardo. Nunca mais você esteve aqui?
Ele tocou na face da imagem recoberta de poeira. Sorriu melancólico.
- Sei que você gostaria de encontrar tudo limpinho, flores nos vasos, velas,
sinais da minha dedicação, certo?
- Mas já disse que o que eu mais amo neste cemitério é precisamente esse
abandono, esta solidão. As pontes com o outro mundo foram cortadas e aqui a
morte se isolou total. Absoluta.
Ela adiantou-se e espiou através das enferrujadas barras de ferro da
portinhola. Na semi-obscuridade do subsolo, os gavetões se estendiam ao longo
das quatro paredes que formavam um estreito retângulo cinzento.
- E lá embaixo?
- Pois lá estão as gavetas. E, nas gavetas, minhas raízes. Pó, meu anjo, pó-
murmurou ele. Abriu a portinhola e desceu a escada. Aproximou-se de uma gaveta
no centro da parede, segurando firme na alça de bronze, como se fosse puxá-la.
– A cômoda de pedra. Não é grandiosa?
Detendo-se no topo da escada, ela inclinou-se mais para ver melhor.
- Todas estas gavetas estão cheias?
- Cheias?…- Sorriu.- Só as que tem o retrato e a inscrição, está vendo? Nesta
está o retrato da minha mãe, aqui ficou minha mãe- prosseguiu ele, tocando com
as pontas dos dedos num medalhão esmaltado, embutido no centro da gaveta.
Ela cruzou os braços. Falou baixinho, um ligeiro tremor na voz.
- Vamos, Ricardo, vamos.
- Você está com medo?
- Claro que não, estou é com frio. Suba e vamos embora, estou com frio!
Ele não respondeu. Adiantara-se até um dos gavetões na parede oposta e acendeu
um fósforo. Inclinou-se para o medalhão frouxamente iluminado:
- A priminha Maria Emília. Lembro-me até do dia em que tirou esse retrato. Foi
umas duas semanas antes de morrer… Prendeu os cabelos com uma fita azul e
vejo-a se exibir, estou bonita? Estou bonita?…- Falava agora consigo mesmo,
doce e gravemente.- Não, não é que fosse bonita, mas os olhos…Venha ver,
Raquel, é impressionante como tinha olhos iguais aos seus.
Ela desceu a escada, encolhendo-se para não esbarrar em nada.
- Que frio que faz aqui. E que escuro, não estou enxergando…
Acendendo outro fósforo, ele ofereceu-o à companheira.
- Pegue, dá para ver muito bem…- Afastou-se para o lado.- Repare nos olhos.
- Mas estão tão desbotados, mal se vê que é uma moça…- Antes da chama se
apagar, aproximou-a da inscrição feita na pedra. Leu em voz alta, lentamente.-
Maria Emília, nascida em vinte de maio de mil oitocentos e falecida…- Deixou
cair o palito e ficou um instante imóvel – Mas esta não podia ser sua namorada,
morreu há mais de cem anos! Seu menti…
Um baque metálico decepou-lhe a palavra pelo meio. Olhou em redor. A peça
estava deserta. Voltou o olhar para a escada. No topo, Ricardo a observava por
detrás da portinhola fechada. Tinha seu sorriso meio inocente, meio malicioso.
- Isto nunca foi o jazigo da sua família, seu mentiroso? Brincadeira mais
cretina! – exclamou ela, subindo rapidamente a escada. – Não tem graça nenhuma,
ouviu?
Ele esperou que ela chegasse quase a tocar o trinco da portinhola de ferro.
Então deu uma volta à chave, arrancou-a da fechadura e saltou para trás.
- Ricardo, abre isto imediatamente! Vamos, imediatamente! – ordenou, torcendo o
trinco.- Detesto esse tipo de brincadeira, você sabe disso. Seu idiota! É no
que dá seguir a cabeça de um idiota desses. Brincadeira mais estúpida!
- Uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta, tem uma frincha na porta.
Depois, vai se afastando devagarinho, bem devagarinho. Você terá o pôr do sol
mais belo do mundo.
Ela sacudia a portinhola.
- Ricardo, chega, já disse! Chega! Abre imediatamente, imediatamente!- Sacudiu
a portinhola com mais força ainda, agarrou-se a ela, dependurando-se por entre
as grades. Ficou ofegante, os olhos cheios de lágrimas. Ensaiou um sorriso. –
Ouça, meu bem, foi engraçadíssimo, mas agora preciso ir mesmo, vamos, abra…
Ele já não sorria. Estava sério, os olhos diminuídos. Em redor deles, reapareceram
as rugazinhas abertas em leque.
- Boa noite, Raquel.
- Chega, Ricardo! Você vai me pagar!… – gritou ela, estendendo os braços por
entre as grades, tentando agarrá-lo.- Cretino! Me dá a chave desta porcaria,
vamos!- exigiu, examinando a fechadura nova em folha. Examinou em seguida as
grades cobertas por uma crosta de ferrugem. Imobilizou-se. Foi erguendo o olhar
até a chave que ele balançava pela argola, como um pêndulo. Encarou-o,
apertando contra a grade a face sem cor. Esbugalhou os olhos num espasmo e
amoleceu o corpo. Foi escorregando.
- Não, não…
Voltado ainda para ela, ele chegara até a porta e abriu os braços. Foi puxando
as duas folhas escancaradas.
- Boa noite, meu anjo.
Os lábios dela se pregavam um ao outro, como se entre eles houvesse cola. Os
olhos rodavam pesadamente numa expressão embrutecida.
- Não…
Guardando a chave no bolso, ele retomou o caminho percorrido. No breve
silêncio, o som dos pedregulhos se entrechocando úmidos sob seus sapatos. E, de
repente, o grito medonho, inumano:
- NÃO!
Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes
aos de um animal sendo estraçalhado. Depois, os uivos foram ficando mais
remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra. Assim que atingiu o
portão do cemitério, ele lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento.
Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado. Acendeu um cigarro e foi
descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda. QUESTÕES SOBRE O TEXTO
O conto é um texto curto que pertence ao
grupo dos gêneros narrativos ficcionais. Caracteriza-se por ser
condensado, isto é, apresentar poucas personagens, poucas ações e tempo e
espaço reduzidos. No conto acima:
Que são as personagens envolvidas no
fatos narrados?
A história narrada no conto limita-se
ao essencial. Tente resumi-la em uma linha.
Nos gêneros narrativos, a sequencia de
fatos que mantem entre si uma relação de causa e efeito constitui o enredo.
Um dos mais importantes elementos do
enredo é o conflito. O conflito é a oposição de interesses que, ao criar
uma tensão em torno da qual se organizam os fatos narrados, prende a
atenção do leitor ou ouvinte. No conto em estudo, em que momento se
inicia o conflito?
Há um momento em que Raquel desconfia
das reais intenções do ex-amante. Nesse momento o conflito atinge o seu clímax,
isto é, seu ponto máximo, o momento de maior tensão na história. Qual é o
clímax do conto?
O desfecho do conto confirma as
desconfianças de Raquel? Por que?
Embora o conto tenha um final
surpreendente, uma leitura mais atenta dele permite perceber algumas
reações de Ricardo que prenunciam suas intenções. Identifique algumas
delas.
Além das reações de Ricardo, há no
conto outras pistas de que alguma coisa estranha poderá acontecer?
Justifique sua resposta.
O conto faz referência ao tempo e ao
espaço em que ocorrem os fatos narrados.
Em que lugar(es) ocorre(m) os fatos?
Qual é o tempo de duração dos fatos?
Identifique no texto indícios de que
Ricardo premeditou sua ação final.
Como o conto é uma narrativa curta, a
descrição das personagens costuma limitar-se ao essencial. No conto lido, quais
são as características:
De Ricardo?
De Raquel?
Como outros textos ficcionais, o conto
costuma ser narrado em 1ª ou em 3ª pessoa. Em que pessoa é narrado o conto
em estudo? Como é possível identificar?
Observe a linguagem do conto lido.
Que tipo de variedade linguística foi
empregada?
Que tempo verbal predomina?
Quais são as características do conto? Considere
os seguintes aspectos: finalidade do gênero, perfil dos interlocutores,
suporte ou veículo, tema, estrutura, linguagem.
Adaptação do conto "Venha ver o por do sol" de Lygia Fagundes Telles QUESTÕES SOBRE O VÍDEO
1.O primeiro
aspecto a chamar a atenção no vídeo é a trilha sonora. Que sentimentos ela
desperta no expectador? Podemos comparar aos sentimentos despertados pela leitura
do conto? Justifique.
2.O que
o vídeo preto/branco poderia revelar sobre a intenção do produtor?
3.Alguns
diálogos foram reproduzidos como a obra original, outros foram adaptados.
Explique o motivo para essa adaptação.
4.O que
o “sinal da cruz” feito por Ricardo representa? E como o personagens da indícios
de que pretende fazer algo a Raquel?
Já deve ter acontecido com você. - Não está se lembrando de mim? Você não está se lembrando dele. Procura, freneticamente, em todas as fichas armazenadas na memória o rosto dele e o nome correspondente, e não encontra. E não há tempo para procurar no arquivo desativado. Ele está ali, na sua frente, sorrindo, os olhos iluminados, antecipando a sua resposta. Lembra ou não lembra? Neste ponto, você tem uma escolha. Há três caminhos a seguir. Um, o curto, grosso e sincero. - Não. Você não está se lembrando dele e não tem por que esconder isso. O “Não” seco pode até insinuar uma reprimenda à pergunta. Não se faz uma pergunta assim, potencialmente embaraçosa, a ninguém, meu caro. Pelo menos não entre pessoas educadas. Você devia ter vergonha. Não me lembro de você e mesmo que lembrasse não diria. Passe bem. Outro caminho, menos honesto mas igualmente razoável, é o da dissimulação. - Não me diga. Você é o... o... “Não me diga”, no caso, quer dizer “Me diga, me diga”. Você conta com a piedade dele e sabe que cedo ou tarde ele se identificará, para acabar com a sua agonia. Ou você pode dizer algo como: - Desculpe deve ser a velhice, mas... Este também é um apelo à piedade. Significa “Não torture um pobre desmemoriado, diga logo quem você é!” É uma maneira simpática de dizer que você não tem a menor idéia de quem ele é, mas que isso não se deve à insignificância dele e sim a uma deficiência de neurônios sua. E há o terceiro caminho. O menos racional e recomendável. O que leva à tragédia e à ruína. E o que, naturalmente, você escolhe. - Claro que estou me lembrando de você! Você não quer magoá-lo, é isso. Há provas estatísticas que o desejo de não magoar os outros está na origem da maioria dos desastres sociais, mas você não quer que ele pense que passou pela sua vida sem deixar um vestígio sequer. E, mesmo, depois de dizer a frase não há como recuar. Você pulou no abismo. Seja o que Deus quiser. Você ainda arremata: - Há quanto tempo! Agora tudo dependerá da reação dele. Se for um calhorda, ele o desafiará. - Então me diga quem eu sou. Neste caso você não tem outra saída senão simular um ataque cardíaco e esperar, falsamente desacordado, que a ambulância venha salvá-lo. Mas ele pode ser misericordioso e dizer apenas: - Pois é. Ou: - Bota tempo nisso. Você ganhou tempo para pesquisar melhor a memória. Quem é esse cara, meu Deus? Enquanto resgata caixotes com fichas antigas do meio da poeira e das teias de aranha do fundo do cérebro, o mantém à distância com frases neutras como “jabs” verbais. - Como cê tem passado? - Bem, bem. - Parece mentira. - Puxa. (Um colega da escola. Do serviço militar. Será um parente? Quem é esse cara, meu Deus?) Ele está falando: - Pensei que você não fosse me reconhecer... - O que é isso?! - Não, porque a gente às vezes se decepciona com as pessoas. - E eu ia esquecer você? Logo você? - As pessoas mudam. Sei lá. - Que idéia! (É o Ademar! Não, o Ademar já morreu. Você foi ao enterro dele. O... o... como era o nome dele? Tinha uma perna mecânica. Rezende! Mas como saber se ele tem uma perna mecânica? Você pode chutá-lo, amigavelmente. E se chutar a perna boa? Chuta as duas. “Que bom encontrar você!” e paf, chuta uma perna. “Que saudade!” e paf, chuta a outra. Quem é esse cara?) - É incrível como a gente perde contato. - É mesmo. Uma tentativa. É um lance arriscado, mas nesses momentos deve-se ser audacioso. - Cê tem visto alguém da velha turma? - Só o Pontes. - Velho Pontes! (Pontes. Você conhece algum Pontes? Pelo menos agora tem um nome com o qual trabalhar. Uma segunda ficha para localizar no sótão. Pontes, Pontes...) - Lembra do Croarê? - Claro! - Esse eu também encontro, às vezes, no tiro ao alvo. - Velho Croarê! (Croarê. Tiro ao alvo. Você não conhece nenhum Croarê e nunca fez tiro ao alvo. É inútil. As pistas não estão ajudando. Você decide esquecer toda a cautela e partir para um lance decisivo. Um lance de desespero. O último, antes de apelar para o enfarte.) - Rezende... - Quem? Não é ele. Pelo menos isso está esclarecido. - Não tinha um Rezende na turma? - Não me lembro. - Devo estar confundindo. Silêncio. Você sente que está prestes a ser desmascarado. - Sabe que a Ritinha casou? - Não! - Casou. - Com quem? - Acho que você não conheceu. O Bituca. Você abandonou todos os escrúpulos. Ao diabo com a cautela. Já que o vexame é inevitável, que ele seja total, arrasador. Você está tomado por uma espécie de euforia terminal. De delírio do abismo. Como que não conhece o Bituca? - Claro que conheci! Velho Bituca... - Pois casaram... É a sua chance. É a saída. Você passa ao ataque. - E não me avisaram nada?! - Bem... - Não. Espera um pouquinho. Todas essas coisas acontecendo, a Ritinha casando com o Bituca, o Croarê dando tiro, e ninguém me avisa nada?! - É que a gente perdeu contato e... - Mas o meu nome está na lista, meu querido. Era só dar um telefonema. Mandar um convite. - É... - E você ainda achava que eu não ia reconhecer você. Vocês é que esqueceram de mim! - Desculpe, Edgar. É que... - Não desculpo não. Você tem razão. As pessoas mudam... (Edgar. Ele chamou você de Edgar. Você não se chama Edgar. Ele confundiu você com outro. Ele também não tem a mínima idéia de quem você é. O melhor é acabar logo com isso. Aproveitar que ele está na defensiva. Olhar o relógio e fazer cara de “Já?!”) - Tenho que ir. Olha, foi bom ver você, viu? - Certo, Edgar. E desculpe, hein? - O que é isso? Precisamos nos ver mais seguido. - Isso. - Reunir a velha turma. - Certo. - E olha, quando falar com a Ritinha e o Mutuca... - Bituca. - E o Bituca, diz que eu mandei um beijo. Tchau, hein? - Tchau, Edgar! Ao se afastar, você ainda ouve, satisfeito, ele dizer “Grande Edgar”. Mas jura que é a última vez que fará isso. Na próxima vez que alguém lhe perguntar “Você está me reconhecendo?” não dirá nem não. Sairá correndo.
Maior abandonado
Cazuza
Eu tô perdido
Sem pai nem mãe
Bem na porta da tua casa
Eu tô pedindo
A tua mão
E um pouquinho do braço
Migalhas dormidas do teu pão
Raspas e restos
Me interessam
Pequenas porções de ilusão
Mentiras sinceras me interessam
Me interessam...
Eu tô pedindo
A tua mão
Me leve para qualquer lado
Só um pouquinho
De proteção
A um maior abandonado
Seu corpo com amor ou não
Raspas e restos me interessam
Me ame como a um irmão
Mentiras sinceras me interessam
Me interessam...
Migalhas dormidas do teu pão
Raspas e restos me interessam
Pequenas poções de ilusão
Mentiras sinceras me interessam
Me interessam...
Eu tô pedindo
Que a tua mão
Me leve para qualquer lado
Só um pouquinho de proteção
A um maior abandonado
Responda as questões propostas abaixo:
Comparar as duas formas de abandono/distanciamento as quais os dois textos referem-se.
Identificar a qual gênero pertencem os textos.
Analisar o conto conforme as estruturas características do gênero (apresentação,complicação, clímax, desfecho).